Artigo: Reforma Trabalhista versus Reforma Previdenciária e a hipocrisia!

 

"A elite e os familiares da elite e os familiares dos parlamentares e os amigos dos amigos dos parlamentares também se aposentam, por isso o comedimento na análise, no debate – que não houve quando da reforma trabalhista". Leia mais opiniões sobre as reformas no texto de autoria do magistrado Rui Ferreira dos Santos.

Reforma Trabalhista versus Reforma Previdenciária e a hipocrisia!

Rui Ferreira dos Santos
Juiz do Trabalho da 4ª Região

Pois a reforma trabalhista não teve e não tem a mesma repercussão da reforma previdenciária. Por quê?  A reforma trabalhista foi aprovada em velocidade sem precedente na história do parlamento brasileiro. Trata-se de redimensionamento de toda uma normatização no campo social que afeta a esmagadora maioria do povo brasileiro – a base da pirâmide social - rejeitada por parte considerável, senão a maioria dos operadores do Direito do Trabalho, inclusive pela própria magistratura que se debate, internamente, em como interpretar a aplicar os novos dispositivos legais.
Já a reforma previdenciária, que o governo pretendia dar a mesma celeridade na tramitação, tem enfrentado resistência de toda ordem, inclusive na própria base governista do parlamento. É que se trata de uma reforma que atinge a todos, independentemente da classe social à que pertence, diversamente do que se dá com a reforma trabalhista, que atinge apenas o trabalhador. Mas a elite e os familiares da elite e os familiares dos parlamentares e os amigos dos amigos dos parlamentares também se aposentam, por isso o comedimento na análise, no debate – que não houve quando da reforma trabalhista. Aqui despertou, de repente, mais do que de repente, um sentimento solidário ao povo brasileiro. Lá, na reforma trabalhista, não houve a mínima preocupação com a repercussão social. Claro, o alvo era outro.
E essa insurgência contra a reforma previdenciária se dá em todos os níveis sociais. Carreiras de Estado, altos funcionários públicos, os deformadores de opinião da grande mídia, profissionais liberais, advogados, médicos, intelectuais, professores, membros do ministério público, da magistratura, todos esses profissionais se debatem com o verdadeiro objetivo e o alcance da reforma previdenciária
Costumo dizer que o ser humano tem uma capacidade extraordinária de reagir conforme o que lhe convém. A solidariedade parece ser um sentimento de quem tem personalidade fraca, titubeante, que não expressa firmeza de convicção. É própria dos seres humanos frágeis, que não foram fortes o suficientes para vencer na vida. Não há adjetivo suficiente para qualificar o comportamento humano frente a outro ser humano mais frágil, que precise de amparo, ou mesmo a um dado agrupamento social que requer mais atenção do setor público. A solidariedade, por vezes expressada, restringe-se a migalhas, que não resolve o problema em si, apenas o contorna e momentaneamente. Somos hipócritas e cínicos a maior parte do tempo. E o tempo todo egocêntricos. Pensamos em nosso próprio bem-estar. Estamos verdadeiramente preocupados, o tempo todo, com nosso próprio umbigo.
É o que se deu com a reforma trabalhista. É o que está se dando com a reforma da previdência. Em relação à primeira, porque abrange determinada classe social, não houve tanta insurgência, quase nenhuma, dos altos escalões, das altas carreiras de Estado, dos próprios integrante do ministério público e da magistratura. Já em relação à reforma da previdência parece que, do nada, de repente, aflorou uma preocupação social em saber o verdadeiro rombo da Previdência ou da falácia desse rombo, da extensão dessa reforma, dos prejuízos incomensuráveis de toda ordem a todos, indistintamente, porque haverá supressão de direitos. Baixou, do nada, um sentimento solidário com toda a classe trabalhadora. Isso tem um nome e de solidário nada tem: h i p o c r i s i a. 

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